23 September 2011

Aos veteranos.

"Não conseguireis desgostar-me da guerra. Diz-se que ela destrói os fracos, mas a paz faz o mesmo."
Bertolt Brecht


Encontrei um amigo antigo essa semana, que não o via há quase 10 anos. Amizade antiga é uma delícia, a gente sempre começa a conversa com um "então..." e segue o papo como se o tempo não tivesse passado.

Conversamos muito. Contamos tantas histórias ocorridas nesse tempo que perdemos a conta do tempo e das risadas. E falamos de muitas tristezas e perdas, que também foram tantas. E profundas.

Num determinado momento da conversa, consegui verbalizar como realmente me sinto hoje: "sou uma veterana de guerra."

Sou uma pessoa que viveu uma guerra (particular), viu a morte (de si, dos outros), viu as mesquinharias e baixezas humanas, viu de perto a loucura.

O ser humano, na sua essência, se tornou outra coisa para mim. Eu sei que o que ele pode fazer não tem limites. Não tem pudor. Não tem exceções ao que ele é capaz. Para o bem e para o mal.

Vi tanto o horror quanto o amor, a solidariedade. Vi tanto a glória quanto a queda.

E como uma guerra, não há vitoriosos no final. Uns perdem mais, outros perdem menos.

Ostento por aí essa cicatriz que não gostaria de ter. Ou nunca desejei ter. Para alguns, isso me faz mais forte, para outros, é a marca da idiotice humana. Que conheci tão bem.

Pelo bem ou pelo mal, essa conversa finalmente revelou uma "persona" que há muito tempo tentava definir: não sou ressentida, magoada ou triste o tempo todo. Não sou desconfiada, desesperançada ou melancólica. Não tenho nostalgia do que foi "antes" da guerra. Nenhuma. Porque a guerra veio e levou tudo.

E dos destroços, tenho reconstruído a minha vida. Algumas pedras que encontro pelo caminho me trazem profunda tristeza por tudo que poderia ter sido e não foi. Outras, me trazem profunda alegria, por todo um futuro novo que se abre à minha frente.
Sob um olhar ou outro, a vida segue em frente.

E, de vez em quando, alguém destemido descobre a cicatriz dentro do meu decote. E conhece, hoje, apesar de tudo que viveu, alguém feliz, muito feliz.

14 September 2011

O bom filho à casa torna...



Uma das coisas que mais gosto de fazer na vida, depois de cozinhar, é viajar! Mas viajar, para mim, não é simplesmente pegar a estrada, conhecer um novo lugar. É ter aquele olhar de turista, que acha graça em praça com flores ou feirinha perto da igreja, que sente melhor os cheiros e sabores novos, que presta atenção ao asfalto do caminho. Coisas que, na vida apressada, passam sem ser notadas.

É um tempo "pra dentro" que tiro para mim. Aqueles segundos de suspiro profundo, só para farejar melhor o clima, aqueles minutos de observação sobre quem passa.

Semana passada, depois de mais de 25 anos sem visitar a cidade (sim, tô velhinha!), voltei para Poços de Caldas - MG. Pouca gente desconfia, mas sou mineira! Nasci, vivi poucos anos lá, a família toda é de São Paulo... e quase nem me lembro de minha mineirice, mas basta provar a primeira colherada de doce de leite, que ela salta aos olhos!

Voltei também à casa em que nasci. Queria muito levar minha filha até lá, fazia muito tempo que tinha vontade de mostrar a ela de onde eu vim, uma casa que vejo em fotos antigas e sei que era um lugar em que minha família foi muito feliz.

A rua, sem saída, guarda uma vilinha que parece congelada no tempo. As casas têm ainda a mesma cor, e aquele trecho imenso que pensava ser de uma calçada a outra é só uma ruazinha que mal circulam dois carros paralelos.

Levar minha filha até lá foi fazer uma viagem no túnel do tempo, tantas histórias, tantas casas, tantas vidas. Foi me ver de novo, correndo de um lado ao outro da rua, sem preocupações, sem estrada, sem destino.

Para ela também foi curioso, reviver os lugares turísticos da cidade, as charretinhas, o teleférico (que meu pai ajudou a construir), a pizzaria de 70 anos, os queijinhos do mercado municipal, brincar na praça em frente ao Palace Hotel... lugares em que "mamãe brincava quando tinha o meu tamanho!"

É claro que hoje em dia a cidade está muito mais moderna, diferente daquela época. Eu, entretanto, fui à cidade de 1973, e talvez por isso ela tenha uma dimensão muito particular... e essa viagem tenha sido tão bonita.

09 September 2011

...



às vezes eu sinto tanto a falta dele que falta lugar dentro de mim pra caber toda a saudade.

04 September 2011

I'm cleaning out my closet...

Em verdade vos digo: não há uma coisinha ruim na vida que não possa ser transformada, com tempo, coragem e paciência, em alguma coisa boa. Quer dizer, deve ter alguma coisa que seja ruim para sempre. Deve ter, mas eu não quis procurar.

Esses tempos têm sido dedicados à reciclagem emocional de muitas memórias. Abri caixas (de pandora) que estavam guardando esqueletos que saltaram de dentro delas e saíram saltitando pela casa, feito sacis desgovernados.

Cuidei de engarrafá-los. E tirá-los de perto, organizando externamente o que internamente já encontrou um canto para ficar.

Não há como nos despedir de capítulos de nossa história. Não definitivamente. Mas depois de lê-los e relê-los algumas vezes, as histórias vão mudando de sentido, de função, de sensações que despertam.

O tempo é o senhor da razão. Mesmo que a gente nem tenha razão suficiente para entender o que isso significa ou tenha pressa demais para esperar.

É melhor você correr...



The dogs days are over!