23 November 2011

Para: Clarice. De: Mamãe.

Faz tempo que não falo de nós por aqui. Estou tão vestida com as armas para te proteger - e cuidar dos seus direitos, que são tantos e tão merecidos - que me esqueço que por trás dessa armadura (e de tanta guerra e maldade que tem no mundo) existe o meu coração de mãe, tão bem cuidado com os band-aids das Garotas Poderosas em cada machucado. Que você colou.

Esqueço de dizer o quanto seu beijo de bom dia me faz sorrir logo cedo, mesmo quando o banho, a mochila, a agenda, parecem ser mais urgentes do que o cheiro bom que você tem de pasta de dente tutti frutti e bisnaguinha com nutella, antes das 8h da manhã.

Faltou falar de novo das incontáveis vezes por dia que eu me lembro de você, ao esbarrar no relógio e pensar se já passou o horário do teu almoço, se você está feliz. Se o tempo vira, e eu te vesti com uma blusa extra. Se hoje é sexta, e você está com seu brinquedo preferido.

Quando você volta da escola, tento ser mais rápida que sua empolgação, e percebo correndo se seus dedinhos estão sujos de tinta, se o seu cabelinho está desarrumado ou se o sapato está com marcas de areia. E adivinho o seu dia, suas artes e brincadeiras, tirando da cartola um assunto que coincida com suas realizações. Que você me conta, orgulhosa!

Esqueço de dizer, Pipoquita-Passarita, mas não deixo de pensar.

Chamo sua atenção aos carros novos que passam por nós no caminho, só para ouvir você perguntar se é o "tchincoetchenco" que eu queria tanto ter... e ouço novamente seu sermão de que a gente precisa guardar dinheiro para poder comprá-lo. E sonhamos tantas viagens!

Invento histórias novas todo dia, só para ver seus olhinhos pararem sapecas, olhando para cima, pensando e me questionando, e eu me derreto toda com a sua lógica e inteligência.

Supero o cansaço, os problemas, as preocupações, só para sorrir leve ao seu lado, provocando indefensáveis "ataques de beijos", ou os recentes "ataques de cócegas", que você sugeriu. E eu tenho como não concordar?

Sua mãozinha cada vez maior, mais firme ao segurar na minha, é que me faz seguir em frente. É o meu norte, minha seta, meu escudo. Minha força.

Choramos e rimos juntas, às vezes, na mesma oração. Estamos tão parecidas, no bem e no mal, e já prevejo tantas e longas conversas - fáceis e difíceis - sobre o que for igual demais em nós duas. Gostamos de abraços fortes. E também de bater forte o pé no chão.

É muito amor nos nossos dias, filha linda. E embora eu ande pouco inspirada para escrever sobre ele, saiba que é esse amor que me move, me orienta, me faz respirar, mesmo quando o dia dói demais. E os meus dias têm doído muito.

A dor passa, nos esquecemos dela. E a vida segue em frente, feliz, na maior parte do tempo.



É fácil escolher o caminho. Hoje é você que me aponta o melhor destino.

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