13 May 2010

Vida própria

Estar em licença médica, embora por razões não desejadas e das quais eu quero sair logo, me permite viver minha casa de um jeitinho bem especial, talvez como nunca vivi. Pelo menos esta casa, nessa atual situação.

Ter a casa toda pra mim é algo que experimentei há muito tempo, quando tive um breve período longe da minha mãe. Depois, casamento e maternidade me "roubaram" esse silêncio de que gosto tanto.

Eu sei, não troco minha vida por nada, amo estar agora com a Clarice bagunçando pra lá e pra cá, mas ouvir minha casa, como estou fazendo agora, me dá uma paz há tempo não vivida.

Minha casa nem percebe que estou aqui, acostumada com minha ausência diária e correria na volta, e ela vive uma vidinha toda dela.

O vento que bate na cortina, sinal de distração da janela aberta... alguns pingos na pia, passarinhos na vizinha, uma música ao fundo no asilo aqui do lado. Uma porta que bate de leve, uma almofada que se ajeita nos sofá... um papel que voa para o chão. Parece que a casa respira também quando estou ausente, leva também sua vida, aguardando paciente minhas ordens.

Quando ex-mah-rido deixou de morar aqui, me perguntaram se eu ia aguentar ficar sozinha. Me recomendaram ir para a casa de minha mãe, sair por um tempo desse poço de lembranças, mas não arredei pé.

Eu amo minha casa, suas portas e janelas, suas cortinas e histórias, essa construção lenta e interminável. Seus cheiros, seus defeitos, sua beleza de lugar em que as pessoas realmente vivem e se sentem incluídas.

Nós estamos construindo novos hábitos e arrumações, nova rotina, novos objetos.

Mudar tudo é mais fácil quando há vida própria, dentro da gente.

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