26 February 2009

Episódio de ER

A gente não sabe como é privilegiado por ter um bom convênio médico, amigos na área da saúde que possam te indicar os especialistas mais competentes até estar na sala de espera da rede pública.

Hoje, pela segunda vez, fui ao Instituto da Pele da Fundação Santo André para iniciar meu tratamento de psoríase pelo SUS. Não é a primeira vez que falo desse assunto no blog, mas hoje, a consulta propriamente dita (a anterior foi apenas "triagem" e pedido de exames) me levou à uma experiência digna de um episódio de ER.

Espera. Uma longa espera, de mais de 5 horas, senha nº 100 às 7h da manhã, pessoas de todos os jeitos e raças, embora com um semblante em comum: ali, todos tínhamos aquela consulta, aquela equipe como a alternativa possível. No meu caso, talvez não fosse a única ou a última, mas para os outros duzentos que ali esperavam, certamente era.

Fui para uma sala com um dos residentes. Nada de resolver meu caso. Esperamos o professor chegar. Quase uma hora depois, entrei numa sala, com mais ou menos 10 alunos e um professor, que rapidamente me fez todas as perguntas e, sem olhar para mim, explicou aos alunos as alternativas possíveis de tratamento, os riscos e benefícios e, se eu não soubesse o que tantas siglas significam, não saberia que talvez o medicamento comprometa meu fígado e cause anemia. Além de causar uma memória orgânica abortiva nos próximos três anos após o final do tratamento. Ali, eu não era uma pessoa. Eu era um caso.

Na volta para o consultório, tudo rápido e ligeiro, tão diferente da sala de espera: receituário em mãos, posologia e nenhuma prescrição de "ternura, carinho, afeto e atenção". Nem foi necessário, pois todas as minhas tentativas de vencer esse problema se esgotaram, para mim, a opção por esse medicamento é mesmo o fim de uma história. É um ultimato. O fator psicológico da história já foi superado, agora vamos ao clínico. Sem dor.

É hora de jogar pra ganhar, porque eu já cansei de perder.

20 February 2009

O balé imaginário da bailarina linda...



Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga,
tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem


Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem




O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...


Ciranda da Bailarina
Chico Buarque
Composição: Edu Lobo / Chico Buarque

19 February 2009

Vagina mágica

Todos os dias, tomo banho com filhota. Fazemos uma bagunça danada no banheiro, em muitas vezes ela chora alucinadamente quando lava os cabelos, noutras se mata de rir quando fazemos micagens e brincamos com sabão.

Assim, nessas brincadeiras e perguntas sobre "qué iiiixo mamãe?", ensinei para a filhota que ela tinha uma vagina. Não é piriquita, tiquitita, liliquita, cuíca, xiita. Ela tem uma vagina, sem apelidos ou tabus. Já bastam os meus, não preciso perpetuar a tradição de vergonhas e preconceitos que paira sobre a ala feminina da família.

E assim, lavamos o pezinho, o pescoço, o bracinho, o bumbum e... a sua vagina.

......

Ontem, fomos comprar sua fantasia de carnaval. Ela escolheu uma "bairarina", cor de rosa, cheia de frufrus. Escolheu também uma tiara com bolinhas saltitantes vermelhas e uma varinha de condão de lantejoulas prateada. Assim, ela virou uma "bailarina fada madrinha", em suas próprias palavras.

Na hora de passar as coisas no caixa, pedi que ela me desse a sua varinha, para que pudesse ser paga.

E, em alto e bom som, no meio da loja, ela diz pra moça do caixa:

"Oh, a minha VAGINA MÁGICA!". (ela quis dizer "varinha", mas confundiu as palavras)

A loja inteira gargalhou.

E, assim que a moça colocou a varinha na sacola, ela repete:

"Mamãe, minha VAGINA está icondida!!!"

Saí da loja rindo muito, e esperando que os outros entendam que minha filha tem vagina... e é mágica!

A minha? Bom, a minha é "dentata", mas aí é outra história! :)

Blog da Naka

Olha, sempre acreditei na força da amizade. No poder que ela tem de te fazer crescer.
Principalmente agora que eu tenho uma amiga cujo blog virou "o mais legal do público", pelo uol. Sim, senhores, estou falando do Blog da Naka, da querida Nakamura, que é uma das quatro leitoras oficiais desse bloguinho aqui. E sou um dos preferidos dela (só porque ela é minha amiga ;)) e provavelmente isso vai atrair mais leitores por essas bandas.

Ou seja, não é preciso ser blogueira famosa, é só ser amiga (favoritada) de uma delas. hohohohoho

Então, se você chegou até aqui pelo blog da minha amiga, agradeço a visita. Senta aí que eu vou buscar uma xícara de café pra nós.

E você me conta o que eu já sei: que com ela é sempre história de amor eterno, porque a Naka é uma querida mesmo. A pessoa e a blogueira.

18 February 2009

"A mão de Deus"


Já não é de hoje, algumas situações importantes têm acontecido em minha vida. Coisas boas e bobas, pequenas, outras importantíssimas, daquelas que têm potencial de mudar pra sempre a minha "rota".

Fica cada dia mais claro, a cada sessão de terapia, a cada telefonema com a Mari, a cada vez que eu vou na varanda do quarto e olho pra árvore grandona que o vizinho tem, para mostrar os "passarinhos" pra minha filha quando ela chora, a cada email com a Lucia, a Fatima ou a Faby, amigas novinhas em folha que pelo jeito vieram pra ficar, a cada vez que eu pego a Helô no colo, fica mais e mais evidente a época de colheita, um grande fio invisível que liga as pessoas, as situações, os encontros.

Minha mãe diria que é a "mão de Deus", que toca e transforma nossas vidas. Fico sempre reticente quando falo de Deus por aqui. Não por causa da minha fé, que não tem nada de reticente. Tenho uma fé militante e sagitariana, acreditando que a vida dá certo, pra mim, pros meus amigos, para todos. Até quando o canoa vira, eu acredito que é possível fazer um esforço e enxergar algo de bom ali, mesmo ensopado e perdido no meio do rio. É que o meu Deus não é católico ou protestante, é um deusinho bem particular.

Minha crença se traduz de várias formas. Sou devota de alguns santos católicos, embora não frequente nenhuma igreja. Só quando preciso de um agradecimento solene, dou um jeito de entrar numa igreja bonita e agradecer. A Deus, ao Universo ou a essa inteligência/intuição que perpassa nossas consciências, que é mais forte que todos nós, que é palpável pra mim. Palpável no sentido de poder ser 'manipulada'(no bom sentido da palavra), que pode ser modelada com minhas mãos.

Tenho fé nessa inteligência/intuição. Na "mão de Deus" de minha mãe, um conceito que mudou tanto ao longo da minha vida, mas que nunca deixou de ter o mesmo sentido: um poder superior, no qual confio e me inspiro.

Cada vez fica mais claro que não basta ter fé, apenas. Esse "Deus", essa intuição fala conosco o tempo todo, mas nem sempre temos tempo de ouvi-la... ou estamos prontos pra isso. Mais ainda, não transformamos palavras e intenções em ação.

Aquelas situações de que falei no começo desse post tem tudo a ver com isso. Quantas vezes me disseram para que eu fizesse exatamente o que estou fazendo hoje - 'deixe ir', 'você devia aproveitar esse talento', 'não disperdiça isso ou aquilo', 'você é do bem'. Talvez, antes, não estivesse pronta para ouvir essas pessoas que passaram pela minha vida e disseram exatamente a mesma coisa tantas vezes. Hoje estou.

E me sinto totalmente sortuda e privilegiada por essas "vozes" (de Deus, minha mãe diria) continuarem a me inspirar diariamente. É incrível o número de pessoas bacanas que surgiram quando finalmente escolhi determinar um novo traço pra meu destino. Um destino de retidão, lembra? De não voltar atrás.

Se você que me lê ainda insiste em manter um pé em cada canoa, posso ser uma dessas vozes e te dizer com convicção: escolha uma e vá. É difícil no começo, é tão complicado saber que muita gente não vai gostar - com o tempo, você descobrirá que as pessoas que não gostam, no fundo, não importam de verdade, porque vão aparecer e acontecer outras pessoas (novas ou não) que realmente iluminam o novo caminho.

Hoje, consigo reconhecer quando também sou parte desse fio invisível na vida de outras pessoas - a Mari disse que fui um "anjo" ao dizer aquilo outro dia, mas acredito que fui apenas um instrumento para esse fluir, o tal do "rio abajo rio" (no qual confio tanto!) que transmite e recebe, que doa e merece, que vai e vem. Um enredo de amor, no sentido mais puro e simples da palavra.

É o toque da "mão de Deus".

10 February 2009

Existem coisas que, para as saber, não basta tê-las aprendido.*

O problema é saber que não há morte em vida, embora sejamos carrascos e executamos emocionalmente certas pessoas em nossas histórias. Sabemos que elas estão bem vivas, fazendo suas próprias histórias e não estão nem aí para você. Não é fácil.

O problema é saber por que está doente, auto-descuido, auto-preguiça, e que não é por acaso.

O problema é saber-se fraco, extremamente fraco, embora bata no peito e diga que aguento, que não me importo. Importa muito, conta muito. Saber da própria fraqueza é quase insportável, meu discurso vago é triste, no mínimo.

O problema é reconhecer-me falsa, quando tudo que mais temia era a falsidade em si. Saber que se não há sobrevivência possível num antro de hipocrisia e inveja, mas que tenho a obrigação de sobreviver, compulsoriamente. Sou parte disso e dói.

O problema é saber que acaba, já acabou tantas vezes, querendo ou não, chorando ou não, tentando ou não. É o mesmo fim, o ralo, aquele que até hoje procuro, pra onde foi? pra onde foi? Foi, mesmo que não saiba aonde. E não há graveto que me agarre para evitar a queda. Deixar ir é inevitável, minha resistência é curta, eu sei.

O problema é conhecer o imã das minhas frustrações. O auto-engano, velho conhecido, me esperando, com nome, telefone e cpf. O buraco negro. Que atrai tudo de bom e de ruim que tenho ou tive, que arrasta sem pena meu ideais. Sempre. De novo. Repetition.

O problema é saber que não é só a sua falta de tempo. Difícil é saber que o meu tempo está em falta, mas também não é só isso.

O problema é saber que não é incompetência, falta de sensibilidade, muito menos inteligência. O que assusta é saber a diferença conceitual de visão de mundo. Irrevogável. Talvez você não saiba, mas eu sei.

O problema é saber que é preciso perguntar pro cego "o que queres que eu te faça?", antes de operar o milagre. Difícil é lembrar sempre disso.

O problema é saber. E dormir sabendo. E comer sabendo. E ligar o foda-se sabendo. E respirar sabendo.

O problema é a lucidez impiedosa, não deixando que eu reze para estar errada. Como é possível ter fé, tão lúcida, como entregar-se conhecendo o muro, o dead end?

O problema é conhecer a própria face. Difícil é não sentir medo dela.


* Sêneca

08 February 2009

Momento Macunaíma

"Ai que preguiça!"

06 February 2009

Diagnóstico terapêutico da semana

O tempo passa, as personagens mudam de nome... mas a conta da terapia continua sendo paga pelos messssssmos motivos de sempre!

04 February 2009

Auto-ajuda

Se eu fosse modesta, seria perfeita.

Recado para a outra margem de mim:

Quando o outro sabe que estou com medo e me toma nos braços.
Quando o outro sente quanto me dói a idéia da perda e ousa – e fica um pouco mais.
Quando o outro vê minha fragilidade e não ri de mim nem se aproveita disso.
Quando o outro percebe que preciso de silêncio e não vai embora batendo a porta.
Quando o outro nota que me preocupo com ele e não se irrita.
Quando cometi um erro e o outro não levanta a voz.
Quando faço uma bobagem e o outro gosta um pouco mais de mim porque também sou boba tantas vezes.
Quando simplesmente estou cansada e o outro não acha que estou de mau humor ou que reclamo demais.
Quando estou de mau humor e o outro compreende sem fazer alarde.
Quando levanto de madrugada e ando pela casa... e o outro não vem atrás de mim dizendo: “Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!”
Quando peço um segundo drinque e o outro não diz: “Poxa, mais um?”
Quando digo uma coisa bem inadequada diante de outras pessoas e o outro não se aborrece comigo.
Quando perco a paciência perco a graça perco a compostura e o outro ainda assim me abraça.
Quando o outro – seja filho, amigo, amante, marido – não me considera sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceita quando não estou podendo ser nada disso.
Quando o outro entende que sou apenas uma pessoa, uma pessoa, uma pessoa...
Lya Luft

01 February 2009

Anotaí

1o. de fevereiro de 2009.
Um dia que vai mudar muita coisa na minha vida.