O problema é saber que não há morte em vida, embora sejamos carrascos e executamos emocionalmente certas pessoas em nossas histórias. Sabemos que elas estão bem vivas, fazendo suas próprias histórias e não estão nem aí para você. Não é fácil.
O problema é saber por que está doente, auto-descuido, auto-preguiça, e que não é por acaso.
O problema é saber-se fraco, extremamente fraco, embora bata no peito e diga que aguento, que não me importo. Importa muito, conta muito. Saber da própria fraqueza é quase insportável, meu discurso vago é triste, no mínimo.
O problema é reconhecer-me falsa, quando tudo que mais temia era a falsidade em si. Saber que se não há sobrevivência possível num antro de hipocrisia e inveja, mas que tenho a obrigação de sobreviver, compulsoriamente. Sou parte disso e dói.
O problema é saber que acaba, já acabou tantas vezes, querendo ou não, chorando ou não, tentando ou não. É o mesmo fim, o ralo, aquele que até hoje procuro, pra onde foi? pra onde foi? Foi, mesmo que não saiba aonde. E não há graveto que me agarre para evitar a queda. Deixar ir é inevitável, minha resistência é curta, eu sei.
O problema é conhecer o imã das minhas frustrações. O auto-engano, velho conhecido, me esperando, com nome, telefone e cpf. O buraco negro. Que atrai tudo de bom e de ruim que tenho ou tive, que arrasta sem pena meu ideais. Sempre. De novo. Repetition.
O problema é saber que não é só a sua falta de tempo. Difícil é saber que o meu tempo está em falta, mas também não é só isso.
O problema é saber que não é incompetência, falta de sensibilidade, muito menos inteligência. O que assusta é saber a diferença conceitual de visão de mundo. Irrevogável. Talvez você não saiba, mas eu sei.
O problema é saber que é preciso perguntar pro cego "o que queres que eu te faça?", antes de operar o milagre. Difícil é lembrar sempre disso.
O problema é saber. E dormir sabendo. E comer sabendo. E ligar o foda-se sabendo. E respirar sabendo.
O problema é a lucidez impiedosa, não deixando que eu reze para estar errada. Como é possível ter fé, tão lúcida, como entregar-se conhecendo o muro, o dead end?
O problema é conhecer a própria face. Difícil é não sentir medo dela.
* Sêneca



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